“Ô coisinha tão bonitinha do pai”, cantarolava Xavier Pedro Matine para a filha caçula, Iara, enquanto a rodopiava na sala de casa. Além da pequena, Xavier tinha mais quatro filhos: Jaime Xavier, Aida, Marcos Xavier e Victor João.

Retrato de Xavier Pedro Matine de terno, em frente a um muro
Xavier Pedro Matine.

De Moçambique ao Brasil

De Moçambique, Xavier e a família desembarcaram no Brasil em 1978. A vida feliz e confortável em sua terra natal deu lugar ao medo e à insegurança devido aos diversos conflitos armados que assolavam o continente africano na década de 1970.

Para proteger a família, Xavier seguiu a dica de um conhecido: “vá para o Brasil”. “Meus pais nunca tinham ouvido falar desse país. Não conhecíamos ninguém aqui. Mesmo assim, compraram as passagens de avião e abandonamos a nossa casa própria apenas com a roupa do corpo e uma pequena mala”, conta Aida.

A primeira parada foi na cidade de São Paulo. Por lá, ficaram aproximadamente seis meses. Mas a dificuldade em matricular os filhos na escola no meio do ano letivo os levou a seguir outra dica: “vá para Araraquara, interior do estado”.

A família Matine reunida em Angola, antes da vinda para o Brasil
A família Matine em Angola. A caçula Iara ainda não havia nascido.

Morada do Sol

Em Araraquara, a família enfrentou o desafio de se adaptar a uma nova cultura e aprender um novo idioma, abandonando o dialeto moçambicano que falavam em seu país de origem. “Como éramos criança, tivemos mais facilidade em aprender. Mas até hoje dá para perceber que minha mãe é estrangeira devido ao sotaque”, brinca a filha.

Xavier retomou o trabalho como soldador mecânico em seu antigo emprego, já que seu patrão também veio ao Brasil trazendo toda a estrutura da fábrica.

Anos depois, a família comprou um terreno e começou a construir a casa própria aos poucos. Enquanto isso, as crianças cresciam e se dedicavam aos estudos. “Meu pai fazia questão de investir em nossa educação. Tanto que todos nós somos formados e construímos carreira”, conta.

Em 1993, a família vivia momentos felizes com a construção da casa na reta final e a chegada iminente da primeira neta, filha de Jaime Xavier. Foi nesse ano que Xavier partiu, aos 53 anos.

Família

Aida relembra como Xavier era amoroso e atencioso com a família. “Ele era uma coisa maravilhosa. Mesmo quando estávamos com pouco dinheiro na época de nossos aniversarios, ele sempre fazia questão de demonstrar seu amor ao comprar um simples pacote de bolacha como presente”.

A filha também admirava a relação de carinho, cuidado, preocupação mútua e diálogo entre Xavier e a mãe dela. O pai era conhecido por sua simplicidade, bondade e respeito, sendo admirado pelas pessoas ao seu redor.

Seu jeito tranquilo e quieto, aliado à sua inteligência, deixou uma marca positiva em todos que o conheciam. Se eu pudesse, voltaria em várias encarnações novamente como filha dele.

Legado

“Um sempre pelo outro”. Essa é uma das lições mais preciosas que os filhos receberam dos pais. Como não havia mais nenhum familiar por perto, aprenderam a cuidar e apoiar uns aos outros em todos os momentos.

Essa união é mantida até hoje, mesmo após a partida do pai e a do filho mais velho, Jaime Xavier. “Moramos perto e estamos juntos todos os domingos na casa da nossa mãe, cantando, dançando e revendo as fotos antigas da nossa vida em Moçambique e em Angola”, conta Aida.

Um lugar para lembrar

Aida e a irmã Iara visitam o Lírios Cemitério Parque a cada três meses, em média, para acender uma vela em memória do pai e de Jaime, além de assistir às missas no Dia de Finados e admirar o orquidário.

No Lírios, encontram conforto e acolhimento, tornando as visitas momentos especiais de lembrança e conexão com seus entes queridos.

Aida sentada em um banco no Lírios Cemitério Parque
Aida no Lírios Cemitério Parque.

É um lugar maravilhoso em que nos sentimos muito bem.


Esta reportagem foi publicada originalmente na edição especial de Dia dos Pais da revista do Lírios Cemitério Parque.