Antônio Luiz Marrubia deixou um legado de alegria, simplicidade e valores que seguem vivos na família e nos amigos.
“O mestre chegou.” Era assim que Antônio Luiz Marrubia costumava ser anunciado nas rodas de samba que frequentava. Não era por vaidade, fama ou status: era por respeito. Antônio não apenas dançava samba, e o fazia com uma elegância única. Ele vivia o samba.

Antônio com a esposa Nilda.
Dançava com leveza, autenticidade e chamava atenção sem esforço. “O jeito que ele sambava era só dele. Você até podia tentar copiar os passos, mas não conseguia fazer igual. Era inconfundível”, relembra com orgulho o filho Matheus Mattos Marrubia.
Além do samba no pé, Antônio era conhecido pelo sorriso fácil e pela simpatia com que conquistava novos amigos. Um homem simples e querido, que espalhava alegria por todos os lugares que passava.
Trajetória
Antônio nasceu em Araraquara (SP), onde criou raízes e construiu sua história. Sua origem, no entanto, vinha de mais longe: da Espanha, de onde seu bisavô partiu em busca de uma nova vida no Brasil.
Chegando por aqui, a família trabalhou duro nas lavouras da região. Mais tarde, muitos seguiram para a construção civil, inclusive o pai de Antônio.
Ele teve uma infância simples, marcada por privações, mas também por esforço e dignidade. Ainda jovem, começou a trabalhar ao lado do pai como pedreiro. Por um tempo, os dois se mudaram para São Paulo em busca de melhores oportunidades. Depois, retornaram a Araraquara, onde Antônio permaneceu na profissão pela vida toda.
Durante um período, também foi dono de um bar: o Bar do Compadre. Nessa fase da vida, já era pai de Matheus e Mariana.
Pai presente
Depois de um tempo, Antônio se casou novamente com Nilda Nizete da Silva, que se tornaria uma pessoa fundamental em sua trajetória. “Ela o ajudou a abandonar hábitos ruins, que estavam afetando muito a vida dele, como beber e fumar. Foi uma vitória muito importante para todos nós”, conta Matheus.

Antônio com os filhos Matheus e Mariana.
Nilda tinha dois filhos, Vinícius e Veridiana, que logo foram acolhidos por Antônio como se fossem seus. Ela também fez questão de acolher os filhos dele, fortalecendo os laços familiares. Essa nova fase ajudou a reaproximá-lo de Matheus e Mariana, que passaram a frequentar a casa do pai quase todo fim de semana.
O jeito que ele sambava era só dele.
“Era muito gostoso. Nós quatro brincávamos muito na rua e ele sempre foi um pai muito participativo. Era um verdadeiro molecão”, relembra Matheus.

Nilda e Antônio com os filhos Vinícius, Matheus e Veridiana.
Antônio incentivava as brincadeiras e colocava a mão na massa: construía brinquedos, ensinava mágicas, contava piadas e criava momentos inesquecíveis com muita criatividade. “Ele fazia tacos para jogarmos bets, montava os gols para as partidas de futebol, fazia carrinhos de rolimã. Ele tinha uma habilidade incrível com ferramentas.”
Mas, além da diversão, era também atento e cuidadoso. “A gente sempre brincava na rua e ele ficava de olho. Era comum ele gritar: ‘Olha o carro! Olha o carro!’. Virou até piada entre a gente”, conta, rindo.
Entre as lições mais marcantes que Antônio deixou ao filho, estão os valores da amizade e do respeito. “Ele sempre dizia que a gente pode escolher nossos amigos e que é importante saber entrar e sair dos lugares com respeito, de cabeça erguida.”
Avô carinhoso
Com a chegada dos netos, Antônio viveu uma nova fase da vida. E nela, mais uma vez, se mostrou participativo, atencioso e cheio de amor. Era avô de duas crianças: Gael, filho de Veridiana, e Tom, filho de Matheus.
“Como avô, ele era incrível. Muito presente, muito preocupado. Ele já era assim com os filhos, mas com os netos isso se multiplicou por dez”, conta Matheus, com carinho.

Antônio com os netos Tom e Gael.
Antônio se interessava por tudo: se os meninos estavam comendo bem, se estavam saudáveis, como iam na escola. Mesmo tendo plena confiança na forma como seus filhos conduziam a criação dos pequenos, nunca deixava de acompanhar de perto. “Quando eu falava que o Tom estava doente, com tosse ou alguma coisa, ele ligava todo dia. Na verdade, ele já ligava todo dia ou, pelo menos, mandava uma mensagem no WhatsApp.”
O cuidado de Antônio vinha sempre acompanhado de afeto e, claro, de diversão. Muitas das brincadeiras que Matheus conheceu na infância voltaram a aparecer, agora com os netos: os carrinhos construídos com as próprias mãos, as mágicas com baralho, as piadas que arrancavam risos fáceis. Era o mesmo Antônio de sempre, criativo, leve e divertido, mas agora encantando uma nova geração.
O adeus
Há cinco anos, Antônio recebeu o diagnóstico de um câncer. O tratamento foi longo e, um dos fatores que contribuíram para sua resistência ao processo, foi a decisão que havia tomado décadas antes: parar de beber e fumar. “Se não tivesse parado, talvez nem tivesse conseguido iniciar o tratamento”, acredita Matheus.
Nos últimos meses, a doença avançou. Ainda assim, Antônio mantinha o sorriso e o desejo de estar perto do que mais amava. “Perguntei a ele o que faria se não estivesse doente. Ele respondeu: ‘Eu me imagino com meus netos e no samba’.”

A esposa Nilda com Antônio.
Antônio faleceu no dia 2 de junho de 2025, aos 72 anos. Foi sepultado no Lírios Cemitério Parque, uma escolha que já havia manifestado em vida. “Ele dizia que o Lírios era um lugar bonito, calmo. Gostava da padronização das lápides, da natureza, da paz. Quando esteve aqui em outras ocasiões, se sentiu bem. Por isso, fizemos questão de atender esse desejo.”
Embora não fosse alguém que costumava visitar cemitérios, Antônio era profundamente espiritualizado. “Uma vez, perguntei se ele já tinha visitado o túmulo do meu avô, lá em São Paulo. E ele disse: ‘Eu converso com seu vô na minha cabeça'”, conta Matheus.
Hoje, é assim que o filho busca manter viva essa conexão: com pensamento, carinho e presença. “Eu sempre mentalizo meu pai, penso se ele está bem, tento transmitir paz para ele e para a minha família. E também acho importante ir até o Lírios, sair um pouco da rotina, sentar, conversar. É uma forma de continuar juntos”, finaliza Matheus.
Matéria publicada originalmente na revista do Lírios Cemitério Parque, edição Dia dos Pais 2025.
