Uma trajetória marcada por coragem, autonomia e cuidado que atravessa gerações.

Irene Messina Failla sempre foi uma mulher que parecia caminhar à frente de seu tempo. Inteligente, intuitiva e naturalmente empreendedora, ela cultivava uma visão de mundo marcada pela coragem, autonomia e habilidade de transformar ideias em realizações concretas.

Essa postura progressista não surgiu por acaso. Irene herdou da própria mãe, Joaninha Vitagliano Messina, o espírito inovador e a forte vocação para o trabalho. Ainda nas décadas de 1930 e 1940, Joaninha rompeu padrões ao fundar um salão de cabeleireiro em São Paulo, época em que os cuidados com os cabelos femininos eram restritos às barbearias masculinas.

Ao lado da mãe, Irene e suas quatro irmãs trabalharam no salão desde cedo, crescendo em um ambiente que valorizava a independência, o esforço e a determinação. Imersas nesse exemplo inspirador, todas desenvolveram o mesmo perfil forte e autônomo, consolidando uma verdadeira herança de protagonismo feminino que atravessou gerações.

Na década de 1960, já casada com Orestes Failla e mãe de Zoara, Orestes e Zilaine, Irene mudou-se com a família para Araraquara. Na cidade, reinventou-se profissionalmente e assumiu a gestão de um abatedouro.

Irene ao lado do marido Orestes em retrato antigo

Irene e o marido Orestes.

Anos depois, a família se transferiu para Itanhaém (SP), onde Irene iniciou uma nova fase ao abrir uma confecção. No entanto, em 1988, a trajetória familiar foi profundamente marcada pela perda do patriarca Orestes, vítima de um acidente de carro aos 62 anos.

Diante da dor e das mudanças impostas por esse momento, Irene decidiu retornar a Araraquara, cidade que se tornaria seu lar definitivo.

O amor que reunia gerações

A primogênita, Zoara Failla, relembra que Irene era cuidadosa, atenciosa e carinhosa. Era atenta à saúde, à educação, à profissão e ao bem-estar dos filhos, netos e bisnetos.

Irene com os filhos Zoara, Zilaine e Orestes

Irene com os filhos Zoara, Zilaine e Orestes.

Ao todo, teve cinco netos: Alessandra, Alan e Wilque, filhos de Orestes; Renê, filho de Zilaine; e Andiara, sua neta do coração; além dos bisnetos Samanta, Daiane e Vitor, filhos de Alessandra; Izabelly e Anthony, filhos de Alan; e Bernardo, filho de Wilque. Ainda teve o privilégio de conhecer e conviver, por algum tempo, com sua tataraneta Sarah, filha de Samanta.

Dotada de uma memória admirável, guardava números de telefone, datas de aniversário e pequenos detalhes sobre cada familiar. A alegria também era uma de suas marcas mais evidentes: gostava de festas, de dançar e de celebrar a vida. Era ela quem reunia a família, principalmente em datas como Natal, Páscoa e aniversários.

Irene ao lado de alguns dos netos e bisnetos

Irene com alguns dos netos e bisnetos.

Além de mãe

Zoara vivia em São Paulo, mas retornou definitivamente à Araraquara durante a pandemia, após Irene cair e fraturar o fêmur. “Eu fiquei tanto tempo distante e, quando voltei, eu redescobri a minha mãe”, conta.

Essa reaproximação revelou uma mulher atenta ao mundo, crítica, informada e surpreendentemente atual. Irene acompanhava política, tinha opiniões firmes e percebia nuances que muitas vezes passavam despercebidas pelos outros. “Eu passei a admirá-la muito mais”, relembra.

Após a morte do marido, Irene optou por não se casar novamente. Manteve sua independência, morou sozinha e seguiu ativa: viajava com amigas, cultivava laços fortes e fazia questão de aproveitar a vida. No fim, costumava dizer com serenidade que “eu me diverti, tive uma vida boa”.

Irene usando óculos decorativos em uma festa em família

Irene em uma das comemorações em família.

A perda gradual da autonomia, no entanto, foi um dos momentos mais delicados. Nos últimos dias, ainda manteve a lucidez e falava sobre sua partida, dizendo que desejava reencontrar o marido e o filho Orestes, que havia partido alguns anos antes, vítima de um AVC.

A escolha de permanecer perto

Apesar de eles estarem enterrados em Dourado (SP), cidade natal de Orestes, Irene preferia permanecer próxima da família na Morada do Sol.

Atendendo ao pedido, Zoara buscou opções na cidade e encontrou no Lírios Cemitério Parque o espaço que a mãe desejava. “Quando fui conhecer o Lírios, senti uma paz muito grande. Não tem aquela imagem pesada de cemitério, de túmulos. É um lugar com flores, árvores, jardins. Transmite serenidade”, afirma.

Irene aprovou a escolha, principalmente por causa de um detalhe inesperado: a cafeteria instalada no cerimonial. “Ela disse que gostou porque quem viesse visitá-la poderia tomar um café”, recorda a filha, aos risos.

Partida

Irene faleceu em 3 de março de 2025, aos 94 anos, após enfrentar o agravamento de problemas de saúde que a mantiveram internada por cerca de dois meses.

Hoje, Zoara faz questão de visitar o túmulo da mãe semanalmente. “Minha mãe sempre gostou de visitar parentes e amigos nos cemitérios. Levava flores, cuidava, demonstrava carinho. Eu sinto que ela esperava que a gente fizesse o mesmo por ela. E isso ficou comigo”, afirma.

A filha também compartilha o desejo de reunir a família no mesmo espaço. “Vou trazer meu pai e meu irmão para ficarem junto dela no Lírios”, conta.

Além das visitas, a família já participou das celebrações realizadas no local. “Já fomos ao evento de Dia das Mães. Foi muito bonito a música, a missa, o clima de respeito e acolhimento”, relembra.

Para Zoara, o Lírios representa mais do que um local de despedida: é um espaço de paz, cuidado e conforto. “Sempre que alguém pergunta, nós recomendamos. Não só pela imagem mais leve, pelas flores e pelos jardins, mas também pela organização e pelo atendimento. É tudo muito bem cuidado e as pessoas são extremamente atenciosas.”

Matéria publicada originalmente na revista do Lírios Cemitério Parque, edição Dia das Mães 2026.