aAinda jovem, Irineu Muzelon Venâncio deixou a sua cidade natal, Jaú, em busca de novas oportunidades em São Paulo. Foi lá que conheceu Leonilda, jovem de Ibaté que havia ido à capital apenas para passar alguns dias com a irmã.
O destino, no entanto, traçou outro caminho: ela conquistou um emprego na mesma empresa em que Irineu trabalhava e o encontro transformou a vida de ambos. Apaixonaram-se e, em apenas 11 meses, decidiram se casar.

Irineu e a esposa, Leonilda.
Vieram os anos, os filhos Camila e Régis e, com eles, uma rotina de dedicação. Irineu era sempre o primeiro a chegar e o último a sair do trabalho, mas nunca deixou de estar presente na vida dos filhos.
Aos finais de semana, fazia questão de proporcionar momentos de lazer: passeios no parque de diversões, idas a clubes e almoços de domingo em diferentes restaurantes. “Ele sempre foi um pai muito presente. Apesar de trabalhar demais, quando tinha folga, nos levava para aproveitar o dia com ele”, relembra a filha, Camila Muzelon Venâncio.
Mais tarde, quando os filhos ainda eram crianças, uma nova mudança: a vinda para Araraquara, após herdarem uma casa. A cidade então tornou-se o lar definitivo da família.
O avô dedicado e presente
Com a chegada das netas, o coração de Irineu parecia se renovar. Elas se tornaram o centro de sua vida, especialmente depois de um momento de grande dor: a partida precoce da nora, apenas três meses após o nascimento da neta caçula.
Desde então, Irineu e Leonilda assumiram o cuidado diário das meninas. “Meu pai e minha mãe viviam para elas”, relembra Camila.
Irineu também sabia incentivar, aconselhar e transmitir confiança. Foi assim com a neta primogênita, quando ela partiu para estudar em Minas Gerais. A despedida foi marcada por uma frase que se transformou em guia: “Você só volta aqui pra casa com o diploma na mão”. Mesmo diante da saudade e das dificuldades de viver longe, foi essa lembrança que deu forças para que ela seguisse em frente até a formatura.
A vida da família sempre foi entrelaçada pela proximidade: morar perto, estar juntos, compartilhar o cotidiano. “Ninguém se desgarrava”, conta Camila. E quando a ausência de Irineu chegou, em 2022, aos 69 anos, foi essa rede de afeto construída ao longo dos anos que sustentou cada um deles.
Um homem simples, cuidadoso e generoso
No dia a dia, Irineu era cuidadoso, atencioso e sempre preocupado com a família. “Ele cuidava dos horários dele e dos nossos, não deixava ninguém perder hora. Nunca deu um tapa nos filhos, nunca falou alto. Quando precisava dar bronca, ele pedia para a minha mãe falar”, relembra Camila.
Para Leonilda, o companheirismo era a marca do casamento. “Era um marido maravilhoso. Ficamos juntos por 44 anos e nunca brigamos. Ele era muito família, muito atencioso.”

Irineu com a filha, Camila.
Todos os domingos, Irineu acordava cedo para buscar pão na padaria, preparar o café, fazer um churrasco na hora do almoço, mesmo que fosse apenas para ele e a esposa, e, no final do dia, arrumar-se com capricho para ir à igreja. “O culto era às 18h30, mas ele começava a se arrumar às 16h. Passava creme na cabeça careca e não deixava ninguém mexer nos cremes dele”, recorda a filha, aos risos.
A generosidade também era uma de suas características. Sempre disposto a ajudar, Irineu não sabia dizer não. Muitas vezes, praticava gestos de solidariedade em silêncio, sem comentar com a família. “Só ficávamos sabendo depois. Descobrimos, por exemplo, que todo mês ele comprava uma cesta básica e levava para uma família que ele nem conhecia”, conta Leonilda.
A despedida
Nos últimos meses de vida, Irineu enfrentou uma batalha dura e inesperada contra complicações de saúde. Discreto, não falava nada à família, porque nunca quis preocupar ninguém. Em apenas três meses, o homem forte, sempre ativo e independente, partiu.
“Meu pai nunca gostou de médico. Não era por falta de condição, mas porque não queria depender de ninguém. Deus foi tão bom que ele não chegou a ficar acamado. Ele sempre quis cuidar dos outros, não ser cuidado”, explica Camila.
A partida de Irineu foi precoce e deixou um vazio profundo. Ele sonhava em viajar com Leonilda e as netas após se aposentar de vez, mas o tempo não permitiu. “Meu pai sempre foi o arrimo da família. Quando ele se foi, ficamos sem rumo, totalmente perdidos. Ele cuidava de tudo, queria todo mundo perto. A falta dele foi um transtorno enorme para todos nós”, emociona-se Camila.
Ninguém se desgarrava.

Irineu com o filho, Régis.
Lírios
Um ano antes de partir, Irineu disse à família que havia adquirido um terreno no Lírios Cemitério Parque, onde a nora estava enterrada. Naquele momento, ninguém entendeu completamente os motivos, mas hoje todos reconhecem: foi um gesto de cuidado, de amor e de previsão.
“O meu pai gostava muito do Lírios. Dizia que não parecia um cemitério, mas um jardim. Ele amava flores e aqui sempre teve muitas, além do orquidário. Era um lugar em que ele se sentia bem. Por isso, quis estar aqui”, conta Camila. E assim foi.
O acolhimento também ficou marcado na memória. No dia do sepultamento, cada detalhe foi cuidado pela equipe. “Eles foram práticos, respeitaram nosso tempo e fizeram tudo para que pudéssemos viver aquele momento com serenidade. Colocaram um músico tocando no violino o hino que escolhemos. Foi muito bonito. Esperaram até os parentes de longe chegarem antes de finalizarem o enterro. Isso nos trouxe paz”, afirma Leonilda.
Hoje, visitar o espaço aos domingos, caminhar entre os jardins e permanecer por alguns minutos já se transformou em um hábito para a família. “Quando estamos estressadas, basta vir aqui, sentar um pouco e parece que a alma recarrega”, finaliza Camila.
Esta reportagem foi publicada originalmente na edição especial de Finados da revista do Lírios Cemitério Parque.
