Aproximadamente a cada três meses, a cabeleireira Katia Regina de Souza encontra um tempo na rotina para frequentar o Lírios Cemitério Parque. Por lá, caminha até as lápides dos parentes que já partiram: o sobrinho João Victor, o pai Hélio, a neta Júlia, a mãe Clarice, o sobrinho Frederico.

Hélio e Clarice em seu casamento.
A mãe Clarice Aparecida de Araújo Souza faleceu em 2017. Mas sua presença ainda permanece no exemplo, nas lembranças e no modo de ser que moldou o caráter das filhas Heleonice, Eliane, Edilene e Katia. “Minha mãe era uma mulher brava e forte. Trabalhava muito. Era uma guerreira. Ao mesmo tempo, também era uma mãezona”, conta Katia, com orgulho e ternura.
A história da família Souza com o Lírios começou em 2001, quando a irmã de Clarice, Cidinha, adquiriu um plano e incentivou a família a fazer o mesmo. Desde então, o espaço se tornou parte do caminho da família não só pelas despedidas, mas pelo acolhimento em dias difíceis. “Eu gosto do Lírios pelo conceito de parque, com jazigos subterrâneos, gramado, árvores e flores. É um lugar limpo, agradável. Não tem um clima pesado. Você não se sente mal aqui”, diz Katia.
Natural de São Caetano do Sul, Katia veio para Araraquara por volta de 1980, junto com os pais e as irmãs, após o patriarca ser contratado pela antiga empresa Villares. Foi aqui que Clarice, que havia deixado o trabalho fora para cuidar da família, voltou ao mercado como costureira da Santa Casa de Araraquara, onde se aposentou após anos de dedicação.

Clarice.
Avó
Se como mãe Clarice era firme, como avó ela se transformava. A braveza que marcou sua forma de educar as filhas dava lugar a uma doçura generosa sempre que os netos estavam por perto.
“Vó é mãe com açúcar”, resume Katia, sorrindo ao lembrar das cenas de afeto.
Alguns netos moraram com Clarice e Hélio por um período. “Por isso, ela sempre os protegeu mais. Eram os filhos homens que ela não teve. A gente até brincava que os outros netos tinham um pouquinho de ciúmes”, conta Katia, entre risos. “Mas ela amava e cuidava de todos”.
Com a chegada dos bisnetos, o coração de Clarice se abriu ainda mais. A avó amorosa se tornava bisavó encantada. “Ela se derretia por eles. Ficava feliz em ver a família crescer. Pena que não deu tempo de conhecer o caçula”.
Mas ela amava e cuidava de todos.

Clarice e Hélio com a bisneta.
Perdas
Clarice partiu aos 75 anos. Apesar de sempre ter sido cuidadosa com a saúde, mantinha uma intuição constante de que algo não ia bem. “Ela sempre fazia exames porque tinha um pressentimento. Mas nunca dava nada. A nossa família tinha histórico”, relembra Katia.
Foi apenas quando um exame mais detalhado indicou alterações que a investigação avançou, mas o desfecho veio rápido. “A gente descobriu em fevereiro e, em poucas semanas, ela faleceu.”
A despedida de Clarice foi o desfecho de uma sequência de perdas dolorosas para a família Souza naquela época. “Foi um período muito difícil. Perdemos muitos parentes em dois anos. E, desde então, se eu sonho com a minha mãe, logo depois alguém da família acaba partindo também”, conta Katia.
Aceitação
Katia conta que quase toda a família tem plano no Lírios. “Mas, quando alguém parte, todo mundo vem pedir pra eu resolver as coisas. Eu brinco que faço a travessia da galera. Já virou piada”, conta, com o bom humor que a ajuda a lidar com os momentos difíceis.
Hoje, entre boletos e compromissos do dia a dia, há um pagamento que Katia nunca deixa passar. “A única coisa que faço questão de manter em dia é meu plano no Lírios”, diz, sorrindo.
A forma como ela encara a finitude é serena e prática, quase como quem aprendeu a caminhar com a ausência sem perder o rumo. “Acredito que cada um tem o seu tempo, a sua história. Não tenho problema com a morte. Não tenho medo, não. Eu acredito que é melhor lá do que aqui”, diz.
Esta reportagem foi publicada originalmente na edição especial de Dia das Mães da revista do Lírios Cemitério Parque.
