Em 2014, a engenheira Janaína Mayrink Dias foi transferida de Belo Horizonte para Araraquara. Em apenas um ano já estava completamente apaixonada pela Morada do Sol. Mas, mesmo com todo o encanto pela nova cidade, sentia falta da família, especialmente da mãe, Maria Angélica Alvarenga Mayrink, e da tia, Maria Auxiliadora Alvarenga Mayrink, com quem morava.

Maria Angélica ao lado dos irmãos em uma reunião de família
Maria Angélica com os irmãos.

“Então, ela arrastou a velharia toda pra cá”, brinca Maria Auxiliadora.

Janaína recorda que, no início, a mãe e a tia questionaram a ideia de trocar a capital mineira pelo interior paulista. No entanto, assim que se estabeleceram em Araraquara, entenderam o porquê. “Fomos muito bem recebidas. A cidade nos abraçou. Aqui temos a qualidade de vida de uma cidade desenvolvida, mas com aquele jeitinho de interior. Por exemplo, o mercado do meu bairro ainda usa caderneta”, conta.

Uma família que não se separa

Além dos filhos Marcos, Janaína e Carlos, e dos netos, Maria Angélica tinha cinco irmãos. Sempre que alguém precisava, a família inteira aparecia. “Somos tão unidos que se um familiar está no hospital com gripe, quem passa na frente acha que está acontecendo uma festa, de tanta gente que fica na porta esperando”, brinca Janaína.

A união é tão forte que o filho mais velho, Marcos, decidiu se mudar para Araraquara para ficar perto da mãe. “Ele trouxe a esposa, os filhos, o cachorro e até o namorado da filha acabou vindo morar com a gente. Detalhe: eles largaram os empregos sem ter nada certo por aqui. Ele dizia que não aguentavam mais ficar longe da mãe”, conta Janaína. Logo depois, o filho mais novo, Carlos, também se mudou para a cidade.

“No começo da pandemia, todo mundo veio para nossa casa para passar o lockdown junto. Virou uma loucura, com todo mundo trabalhando remoto, falando ao telefone ao mesmo tempo. Foi uma confusão”, lembra, rindo.

O porto seguro

Janaína e os irmãos sempre viveram em Belo Horizonte. Maria Angélica foi para a capital mineira ainda jovem, com os pais e os cinco irmãos. Trabalhou como secretária, se casou, teve três filhos e, ainda jovem, se separou. Nessa época, sua irmã Maria Auxiliadora, que era professora, se mudou para a casa dela para ajudar a cuidar das crianças. “Eu brinco que perdemos um pai e ganhamos mais uma mãe”, comenta Janaína.

Maria Angélica tinha como prioridade preparar os filhos para a vida. Investiu na educação deles, construiu uma relação baseada na confiança e ensinou a importância da independência financeira e que família era sinônimo de apoio e de dividir todos os momentos, bons e ruins.

Quando ela se foi, nós perdemos o nosso porto seguro.

O adeus

Naquela noite, a família havia se reunido em casa, como tantas vezes antes. Já perto da meia-noite, Maria Auxiliadora avisou Janaína que a irmã não estava bem. “Fui até o quarto e minha mãe já estava tomando banho antes de sairmos. Achei estranho, mas respeitei e saí”, conta.

Ao retornar ao banheiro, a filha viu Maria Angélica conversando sozinha, olhando para o azulejo. Preocupada, perguntou o que estava acontecendo. Foi então que Maria Angélica, com uma serenidade inesperada, disse: “Eu sei que você é forte, mas aguente só mais um pouquinho, por favor. Deus me chamou, eu estou morrendo”.

Janaína, tentando acalmar a mãe, respondeu: “Mãe, ninguém sabe que vai morrer assim. Isso é só uma impressão”.

Maria Angélica colocou um vestido preto, brincos, passou batom e, com a ajuda da irmã, arrumou a cama antes de saírem. No carro, sentou-se no banco de trás, encostando a cabeça no ombro de Maria Auxiliadora. No meio do caminho, Janaína ouviu as palavras que marcariam aquele momento para sempre: “Janaína, não precisa ir rápido. Sua mãe já se foi”.

A escolha já estava feita

Um dia, enquanto voltavam de Matão, a família passou em frente ao Lírios Cemitério Parque. “Minha mãe disse que ali seria o próximo lar dela. E nunca havíamos entrado lá”, recorda Janaína. “Ela morou a vida inteira em Belo Horizonte e, mesmo depois de ter ficado tão pouco tempo aqui em Araraquara, quis ser enterrada nesta cidade”, observa Maria Auxiliadora.

Quando Maria Angélica faleceu, a escolha já estava feita, e isso trouxe alívio para a família em meio a tanto caos. Enquanto Janaína prestava depoimento na delegacia, procedimento padrão nos casos de falecimento fora do hospital, os amigos contrataram o plano funerário do Lírios Cemitério Parque. A liberação, porém, demorou, e a situação tornou-se ainda mais desgastante.

Foi nesse momento que o Lírios ofereceu um suporte decisivo. “Eles foram incríveis. Eu estava completamente desestruturada, com a família toda em Minas. O agente funerário Júnior me disse para confiar nele, que ele resolveria tudo e me poupou de mais dor. Pediu para eu ir para casa, após uma longa noite na delegacia, que eles cuidariam de tudo daquele momento para frente”, relembra.

Com paciência e empatia, Júnior orientou Janaína em cada passo do processo. “Eu nem sabia como enterrar alguém, era a minha mãe e eu não sabia lidar com aquilo”, conta. O agente funerário ajudou na escolha do terreno, esteve presente o velório inteiro, cuidando desde o café até a orientação para os familiares mineiros conseguirem chegar ao local. “Fiquei encantada com o suporte. Foi nessa hora que percebi o quanto é importante ter alguém cuidando de tudo”, afirma.

Maria Auxiliadora e Janaína no Lírios Cemitério Parque
Maria Auxiliadora e Janaína no Lírios Cemitério Parque.

Ela não está mais no escuro

Depois de tudo, Janaína ficou muito abalada. O luto veio acompanhado de um peso enorme e ela não conseguia parar de pensar: “E se eu tivesse saído um pouco mais cedo?”.

Por quase um mês, à meia-noite, ela refazia o percurso feito naquela madrugada. “Eu ligava o cronômetro do celular e fazia o trajeto, sempre tentando calcular quanto tempo levaria se tivesse saído antes”.

Duas vezes, estendeu a saída até o Lírios Cemitério Parque, onde a mãe estava enterrada. Como o cemitério estava em obras, ela conseguiu entrar de madrugada. “O segurança apareceu e perguntou o que eu estava fazendo ali naquela hora. E eu respondi que tinha ido fazer companhia para minha mãe porque ela tinha medo do escuro”.

O segurança, com paciência e compreensão, tentou tranquilizá-la. “Ele disse que ali era o lugar de descanso dela e me prometeu que ficaria a noite toda fazendo companhia para minha mãe. Que eu podia ir para casa descansar, pois era perigoso ficar saindo de madrugada sozinha”.

Convencida, Janaína foi embora, mas a dúvida persistiu. Dois dias depois, estava de volta ao cemitério à meia-noite. “Cheguei devagarinho, com o farol do carro desligado. Ele me viu, se aproximou e mostrou o holofote que havia direcionado para a lápide da minha mãe e disse que agora ela não estava mais no escuro”.

Foi um gesto que, por mais simples que parecesse, trouxe paz ao coração de Janaína. A partir daquele momento, a filha começou a lidar melhor com o luto e parou de sair à noite.

De lugar de medo a lugar de paz

No início, para Janaína, cemitério era sinônimo de histórias de terror. “Eu tinha muito medo de andar no cemitério. Achava que alguém ia puxar meu pé”, brinca.

Com o tempo, sua visão mudou, principalmente depois de uma conversa com Meire, funcionária do Lírios. “Eu comentei isso e ela me disse, séria: fica tranquila, aqui ninguém vai puxar seu pé porque aqui é tudo laje. Demos muita risada”.

O clima é de tranquilidade. É tudo muito silencioso, bonito, com flores, árvores e sombras.

O carinho e o acolhimento dos funcionários foram fundamentais nesse processo. Nos primeiros meses, as visitas eram marcadas por muitas lágrimas e desabafos. “A Meire sempre vinha, sentava-se com a gente e perguntava se podia ajudar. Ela cuida da minha mãe também”, diz Janaína.

Quando o orquidário foi montado no Lírios, Janaína teve uma sensação especial. “Minha mãe adorava orquídeas, tinha um orquidário em casa. Quando vi, tive a certeza de que ela estava muito feliz no céu”.

Orquídeas no orquidário do Lírios Cemitério Parque
O orquidário do Lírios Cemitério Parque.

A família nunca perde os eventos especiais do cemitério, como o Dia das Mães, o Dia dos Pais e o Dia de Finados. “Nos eventos, estamos todos aqui no mesmo sentimento, na mesma dor e na mesma empatia”.

O Lírios se tornou um refúgio. “Quando o dia está agitado, viemos aqui, sentamos no nosso banco, ouvimos os passarinhos e sentimos a paz desse lugar”, conta Maria Auxiliadora.

Elas até brincam que o cemitério virou um ponto turístico. “Quando a família vem de Minas para ver minha tia Maria, eles perguntam onde vão passear primeiro. E respondemos: no Lírios. Ao chegar lá, eles entendem os motivos que fizeram minha mãe escolher o local”, finaliza Janaína.


Esta reportagem foi publicada originalmente na edição especial de Finados da revista do Lírios Cemitério Parque.